segunda-feira, 17 de março de 2014

* incertain

 nous vivons seul 

A gente vive baixinho, admirando os velhos costumes, pendurando os bons tempos na parede. Fazendo do tempo um amigo bom que visita pra fazer rir, fazer chorar, lembrar viver. A gente vive escondido, nunca alheio ao espaço entre o medo e a felicidade. Destratando os corruptos amantes que fizeram do obscuro um lar. Abraçando as virgens desencontradas nos leitos abandonados. A gente nunca grita, a gente nunca foge, a gente nunca deixa fugir. Buscando o que não tem nome, sorrindo pra o desconhecido, vivendo o desencontro. Lutando uma guerra inexistente, revolucionando um mundo morto. A gente não tem coração, mas bate, e bate forte, ansiando a vida. A gente ama e não tem coração, porque assim não morre. A gente nunca morre. Mas deixa de existir, todo fim de tarde. Sem pestanejar. E o tempo nos cura. Mesmo que a gente não esteja doente. Deixa de existir pra gostar de café, pra nunca mais ver a lua, pra nunca mais chegar tarde, pra gostar menos de "gente", e não ter mais certeza de nada, e não querer mais a paz, e buscar capital, e fazer desse capital a paz. Mas o capital nunca é o bastante, daí que a paz nunca vem. A gente vive baixinho, ouvindo o amor cantar.



Elisama Oliveira  em  "Quando eu vivia nos desfiladeiros"









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